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Tuga em Londres

A vida de uma Lisboeta recentemente Londrina.

A estagiária

Em Agosto do ano passado andava à procura de novos estagiários para substituir os actuais que íam voltar para os seus estudos. A primeira pessoa que entrevistei foi uma rapariga Francesa, que procurava um estágio para finalisar o seu mestrado em marketing. Saí da entrevista com a impressão de que ela era simpática mas talvez não tivesse grande potencial para o tipo de trabalho necessário. Então continuei à procura. Entrevistei vários outros candidatos que, ou simplesmente não pareceiam ser nada bons para o estágio, ou achei que as personalidades deles nao íam ser bem compatíveis com a cultura da empresa e equipa. Por isso, ao fim de algumas semanas de procura voltei atrás e decidi contratar a tal rapariga Francesa. De entre todos ainda era a melhor.

 

Ao fim dos primeiros dias de estágio eu já estava arrependida - devia ter confiado no meu instinto e continuado à procura - pensei eu. A rapariga era de facto simpática e divertida, mas também tinha a cabeça sempre no ar. Ela bem que sabe disso, porque claro que falámos no assunto ao longo do estágio e principalmente durante as sessões de revisão do estágio. Ela distrai-se facilmente e, mesmo quando não está distraída, acha difícil perceber aquilo que é preciso fazer. Houveram mais que muitas situações, mas lembro-me perfeitamente de uma mais ao início - estava a explicar-lhe como pesquisar uns dados no Google Analytics. Já sabendo um pouco como ela era, tirei o tempo, sentei-me com ela e expliquei devagar, passo a passo o que ela tinha que fazer para pesquisar a informação necessária:

- percebeste? - pergunto-lhe.

- Sim, sim, percebi.

- OK, então faz lá tu sozinha.

- Humm, carrego neste?

- Não.

- Neste?

- Não.

- Neste (simplesmente outra opção que não tinha nada a haver com nada)?

- Não!

Lá voltei a explicar tudo novamente com muita calma. Ela faz os primeiros passos sozinha e eu deixo-a continuar. Passado uns minutos ela pergunta-me - "E agora que cheguei àquela página que querias, o que é que eu faço mesmo?"

 

Arghhhh!!! Era de puxar os cabelos!!

 

Entretanto ela fez-se muito amiga da Directora de Marketing, que também é Francesa e que não tinha que trabalhar directamente com ela, portanto só conhecia o lado simpático da estagiária. Uma vez a Directora até me disse, meia chateada comigo, que ela sabia que eu não gostava muito da estagiária. Bem, isso não era verdade, que eu também a achava simpática e gostava dela como pessoa. Até já tinha saído à noite com ela e ela veiu à minha festa de anos. Ela assentou que nem uma luva no meu grupo de amigas mais próximas. Mas uma coisa é gostar de sair para uma festa com ela, outra completamente diferente é trabalhar com ela. Essa era a parte que eu não gostava já que foi uma das estagiárias mais difíceis em termos de aprendizagem que tive até hoje.

 

O facto é que, apesar de ser difícil de ela aprender e perceber, também era dedicada e esforçada e, nas tarefas que ela percebia conseguia fazê-las bem e às vezes até ficava tarde no trabalho para conseguir entregar naquele dia. Portanto sem dúvida que não era o tipo de pessoa que eu também quisesse mandar embora a meio do estágio e assim influenciar negativamente a nota do estágio de final de curso.

 

Assim ela foi ficando até ao fim do estágio que terminava em fins de Janeiro, mas eu sabia que a Directora de Marketing estava a tentar arranjar-lhe um emprego na empresa. Não conseguiu encontrar um emprego para ela, mas conseguiu prolongar o estágio por mais 3 meses, na esperança que ao final dos 3 meses já houvesse budget para contratá-la. A parte boa para mim é que a partir deste prolongamento de estágio ela passou a trabalhar directamente com a Directora de Marketing e já não estava na minha equipa. Isso fez com que eu só me tenha dado com ela praticamente para a parte divertida - as conversas de cozinha e noites no pub. Agora damo-nos optimamente já que não temos que trabalhar juntas (ainda bem!). 

 

Entretanto já há budget e a estagiária vai deixar de o ser quando voltar das férias da Páscoa. Eu estou contente por ela ter conseguido o emprego conosco que ela queria tanto, mas a minha Directora quando me disse que ía poder contratá-la confidenciou-me, que de facto ela achava um desafio trabalhar com a estagiária e que a reprimia várias vezes. Mas ao fim de tudo, pela sua dedicação ela queria dar-lhe a oportunidade de tentar melhorar as suas capacidades de trabalho.

 

Ela foi extremamente sortuda com tudo isto porque dificilmente outras empresas íam conseguir mantê-la num emprego semelhante. A nossa Directora de Marketing sendo super experiente e óptima naquilo que faz vai ser uma mentora excelente, e quer demore mais ou menos tempo, acredito que a estagiária vai aprender os fundamentais para conseguir manter-se numa carreira de marketing. Muito provavelmente esse não ía ser o seu percurso caso não tivesse ficado por isso espero que ela efectivamente se aperceba do nível de oportunidade que ela está a ter que lhe pode mudar completamente a vida. 

 

Actualmente tenho a trabalhar comigo 2 estagiários Ingleses. São os primeiros que tenho a trabalhar comigo já que anteriormente tive sempre estagiários de outras nacionalidades - Franceses, Indianos e Polacos. Alguns eram bons, outros médios outros não tão bons. Houve de tudo, mas de forma geral eram inteligentes e agradáveis de trabalhar com eles. No entanto, agora ao comparar o nível de trabalho deles com os dos actuais Ingleses, eu sinto mesmo uma diferença considerável em termos da facilidade e o à vontade que eles têm no trabalho. Eu própria tenho mais confiança que eles mandem e-mails para clientes, que é coisa que os outros nunca tinham feito e sei que posso também contar com eles para escrever artigos, posts, etc. sem ser necessário grandes correcções.

 

Esta experiencia faz-me aperceber esta preferência de forma geral que os empregadores por cá têm pelos cidadãos nacionais. É que se têm experiencias como a minha também se apercebem, quanto eu, que muitas vezes é mais fácil de trabalhar com pessoas que são naturais do país. Claro que isso também depende de trabalho para trabalho, mas percebo o quanto mais, nós como estrangeiros neste país, temos que provar ainda mais que temos a capacidade de trabalho tão boa ou melhor que os nacionais. Eles podem ter tido experiências más no passado e ficarem de pé atrás. Torna-se mais complicado, mais competitivo, portanto, mais uma vez foco como é importante demonstrar os nossos principais pontos fortes logo na primeira entrevista. 

2 comentários

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    Pedro 27.03.2013

    Por acaso o londoncalling é uma pessoa que escreve umas coisas bem interessantes.

    Londoncalling, sou o Pedro que te fez uma carrada de perguntas por email às quase agradeço as respostas que me deste.

    Em resposta ao teu post aqui, tenho a dizer o seguinte:

    Pelo que sei, os emigrantes em Inglaterra são na maioria dos casos (atenção que não disse sempre) mais produtivos e trabalhadores que os ingleses. Estive aí três vezes este ano, e houve duas empresas que me despertaram a atenção para este facto. Recusam-se a contratar ingleses. A mentalidade de emigrante que parte para um país para se agarrar ao emprego é diferente da de um local que provavelmente vive com os papás e como tal tem alguma margem de manobra cometer alguns erros.

    Em relação à situação do "ficar mais tarde"... Epa, isso aí é culpa dos managers e comerciais que se comprometem com os clientes... ainda agora de manhã estive a discutir isso com um colega meu. Estamos na Páscoa, e um colega nosso está de férias e no entanto, ás 8 da manhã já está a trabalhar a partir de casa. O manager do projecto dele, já sabe que ele faz destas cenas e sabe que pode contar com o meu colega que está de férias, a bulir uma data de horas diárias e então diz aos clientes que projectos que normalmente se fazem em mês e meio que demoram 3 semanas. Mas são 3 semanas a trabalhar umas 13 horas por dia. E claro, quando o projecto descarrila e se atrasa pouco já não há muita margem de manobra para "trabalhar mais" a não ser com directas. Mas isto é tudo culpa do meu colega que não soube parar ou por um travão nisto. Uma coisa é pontualmente, em fim de projecto ou testes finais ou subidas a produção fazer os ditos "forcings" para ajudar, outra coisa é constantemente fazer mais do que o necessário só para o manager dele conseguir sorrir perante os clientes.

    Não sei que linguagens de programação é que a tua empresa usa, mas não encontrar developers há meses, ou essas linguagens são todas XPTO ou então o grau de exigência deve ser elevadíssimo e provavelmente os candidatos que apareceram e de facto eram bons, queriam que abrissem os cordões à bolsa e a partir daí já está fora do orçamento.

    Há muitas variáveis a analisar por ambos os lados.

    Não me considero o rei da programação, sou normal. Das três vezes que fui a Londres este ano puramente para entrevistas de emprego, passei em 6 dos 8 testes de desenvolvimento que me colocaram á frente... Mas sabia perfeitamente onde me estava a meter e que linguagens é que envolvia aquela função especifica... Numa das entrevistas que era para C# e SQL, depois de ter passado tudo, pediram-me para fazer uma cena em Python... Mas que raio, a entrevista não era para C# e SQL? Isto é factor decisivo? Enfim...

    Concluindo:

    No mercado de trabalho, em qualquer sitio, tem-se 3 tipos de pessoas:

    1) Os que têm sorte ( estagiaria do post inicial )
    2) Os que são muita bons -> normalmente estes ou começam empresas ou são procurados por toda a gente
    3) os normais -> a maioria das pessoas que quando procura emprego tem sempre qualquer coisa que não agrada a quem recruta ( ou nao sabe isto, ou pede valores altos, ou pede regalias a mais, etc, etc )
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