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Tuga em Londres

A vida de uma Lisboeta recentemente Londrina.

Um memorial diferente

Como já tinha mencionado neste post, nos dias seguintes ao Natal recebi a má notícia de que um dos nossos amigos tinha falecido enquanto estava de férias em Bali. Ontem decorreu um memorial em sua honra, que foi totalmente diferente do que aquilo que esperaria de um memorial. [Quando escrevi o título fiquei na dúvida se esta palavra tem o mesmo sentido em Português? Geralmente antes de um funeral em Portugal decorre o velório, mas num velório geralmente está em presença o caixão. Pelo que não sei se o termo 'memorial' também se usa em Portugal quando o corpo não está presente?]

 

A família dele sabia que ele gostava muito de ir a festas, festivais, etc., e que se gostava de mascarar para tais eventos. Como tal, pediram aos convidados para virem vestidos de forma colorida, tal como se estivessemos num festival, em memória dele. Assim o fizemos. Senti que o início da noite estava um bocadinho mais pesada, ao chegarmos e vermos fotos dele por todo o lado que representavam muitos momentos da sua vida - os seus imensos amigos, muitas actividades e viagens, por exemplo. Houveram também uns pequenos discursos que sem dúvida trouxeram lágrimas a muita gente naquele momento. Mas ao acabarem os discursos, um dos amigos dele já tinha a mesa de DJ preparada e colocou música para o resto da noite. Outra amiga, passou a noite a pintar as caras dos convidados com brilhantes, tal como se de um festival se tratasse, e com o decorrer da noite estavam todos a dançar como se estivessemos num festival. Desrespeito pelo momento? - Não, de modo algum. Tudo foi pensado para fazer daquela noite uma comemoração à vida do Tom, tal como ele gostaria de fazer ele próprio. 

 

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Um gesto que achei muito bonito, foi que a família decorou o local com pequenas plantas com o intuito de que os convidados levassem com eles para casa as plantinhas e cuidassem delas em memória do Tom. 

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Aproveitar cada dia como se fosse o último

Estou a terminar o ano com notícias tristes. Um rapaz que conheço que faz parte de um grupo de amigos, foi passar o Natal e Ano Novo à Indonésia. Anteontem alguém colocou na sua página do Facebook uma mensagem a pedir para que os familiares dele entrassem em contacto consigo. As notícias que sucederam foram as piores que alguns pais poderiam receber - o seu filho na noite anterior tinha decidido ir nadar à noite e o seu corpo foi encontrado na manhã seguinte na praia. 

 

Ao escrever isto, e cada vez que penso no sucedido, mal consigo conter as lágrimas e sinto uma sensação de que não consigo acreditar que ele simplesmente tenha desaparecido assim, sem mais nem menos, numa noite em que possivelmente se estava a divertir imenso. Ainda tinha estado a conversar com ele numa festa à poucas semanas atrás, e de repente nunca mais vou voltar a falar com ele. Tinha 34 anos, estava a arranjar a casa dele, era uma pessoa super descontraída e animada. Não o conhecia bem, mas ele era uma das pessoas do grupo que sabia que ía vendo de vez em quando e aos poucos ía conhecendo-o melhor.

 

É tão estranho, confuso e revoltante o sucedido e só nos faz pensar como nunca podemos dar nada por certo, porque tudo aquilo que temos ou conhecemos como certo, as pessoas que nos rodeiam e nós próprios, de um momento para o outro, podem deixar de ser. E relembra-nos que quer estejamos num ambiente que nos parece seguro ou não, para termos atenção e tomar cuidado com as nossas decisões e atitudes, e para que tenhamos sempre a consciencia dos nossos actos. Mas que enquanto o cuidado é necessário, para também não deixarmos de fazer coisas só porque não sejam 100% seguras. A vida é curta e temos que aproveitar, e temos que tirar vantagens de todos os dias que temos à nossa frente e tentar fazer algo todos os dias que nos faça sentir bem e nos dê algum tipo de alegria. Aproveitar cada dia para chegar mais próximo dos nossos objectivos, quer esses objectivos sejam profissionais e/ou pessoais, quer esses objectivos involvam passar o tempo a descansar num spa ou inventar uma nova tecnologia. Todos somos diferentes e todos temos diferentes interesses que sejam importantes para nós. Quaisquer que esses interesses sejam, temos é que aproveitá-los ao máximo de forma a que, no dia em que deixarmos de existir, quer seja daqui a pouco ou muito tempo, que tenhamos a noção que o tempo que tivemos, mesmo que não tenha sido o suficiente para fazer tudo aquilo que queriamos, que tenha sido um tempo bem passado. 

 

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Fonte imagem: Pinterest

 

 

 

O marco dos 30

Tinha eu 15 anos quando li um artigo de jornal em que o jornalista começou o artigo assim "Faz hoje 15 anos que celebrei os meus 15 anos". Nunca mais me esqueci desse artigo porque achei interessante a retrospectiva que o autor estava a fazer aos seus últimos 15 anos de vida, quando estava a entrar numa nova década da sua vida. Eu, tendo 15 na altura, senti que estava "no outro lado da moeda", e que tinha uma espécie de tela branca à frente que me permitia pintar a minha vida como bem quisesse durante os 15 anos seguintes. Talvez por isso tenha ficado sempre com a ideia de que fazer os 30 seria um marco importante na minha vida. 

 

Hoje cheguei a esse marco, e ao olhar para tráz vejo que a tela tem algumas imperfeiçoes e que não ficou desenhada bem da forma que eu queria, nomeadamente a nível profissional não estou no nível de senioridade e salário que queria e a nível pessoal já queria ter encontrado o "Mr. Right" por esta altura. No entanto, de forma geral, fico contente por ver que esta é uma pintura bonita de que me orgulho. Aos 15 anos ainda estava eu a entrar para o ensino secundário, e desde então aconteceu tanta coisa! - a minha entrada para a faculdade, o meu Erasmus em Londres, as primeiras entrevistas, os percalços dos primeiros empregos e o esboço que comecei a delinear da minha carreira profissional. Tantos foram os diferentes grupos de amigos, muitos que vieram e foram, outros que ficaram; os namorados e as zangas - aqueles que nos fazem sentir que o mundo já não faz tanto sentido sem eles, mas que passado um tempo já nem nos passam pela cabeça; as saídas à noite e as primeiras sensações de ressaca - daquelas em que prometemos para nós próprios que nunca mais voltamos a beber, mas que ao fim de alguns dias esquecemo-nos da promessa. As diferentes viagens com a família, amigos e trabalho e as experiências e lembranças deixadas por cada uma delas. Os momentos de maior sucesso no trabalho e aqueles em que só me apetecia chamar nomes ao meu patrão ou colegas. Os momentos dedicados a mim mesma em que me concentro numa profunda tristeza, e os momentos de completa alegria em que me sinto no topo do mundo.

 

Um pouco mais de metade da minha tela foi pintada em Londres, e, apesar das linhas escuras pintadas nesse lado da tela, a maior parte da pintura é feita de cores alegres que me fazem agradecer o momento em que tive a oportunidade de vir para esta cidade. Sinto que mudei imenso como pessoa ao longo destes anos, aprendi e cresci. A minha vida em Londres e as experiências que aqui tive fazem de mim a pessoa que sou hoje e estou contente com o resultado. Há coisas que queria ter pintado na altura a que chegasse aos 30 e que não pintei, mas pensando em retrospectiva - há alguma coisa que eu teria feito de forma diferente ou alguma oportunidade que me arrependo de não ter apanhado? - De forma geral, a resposta é não. Claro que agora sei que talvez deveria ter tomado algumas decisões diferentes em certas alturas, mas como costumo dizer - é a viver e a tomar as decisões erradas que se aprende para melhorar no futuro. 

 

Agora que cheguei a este marco da minha vida parei a pintura desta tela e vou deixá-la como está. Fica pendurada na minha memória para que sempre que queira, possa rever, repetir boas tomadas de decisão e lembrar de evitar cometer os mesmos erros. Há minha frente, tenho uma nova tela branca na qual irei desenhar os próximos 15 anos da minha vida. É entusiasmante ter novamente a mesma perspectiva que tinha quando aos 15 anos - a perspectiva de que posso fazer o que quiser da minha vida durante os próximos 15 anos e o entusiasmo para alcançar aquilo que pretendo. Venham daí mais 15!

 

Quero aqui deixar neste post o link para a música St. Louis Blues de Sidney Bechet, por nenhuma outra razão de que calhou ser esta a música que estava a ouvir quando comecei a escrever este post e que acho que o acompanha bem.