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Tuga em Londres

A vida de uma Lisboeta recentemente Londrina.

Como ser uma 'lady of leisure'

Como esta semana estou de férias (ou desempregada - isto só depende da perspectiva com que se olha para a coisa), sou uma 'lady of leisure' durante uma semana, tal como me intitulou um amigo meu. Geralmente a expressão é utilizada em referência a mulheres que não têm responsabilidades de trabalho mas estão bem, muitas vezes a viver do fundo dos maridos ou de uma herança. Não é o meu caso, mas como estou só desempregada durante uma semana também dá para aproveitar as boas coisas da vida sem grandes stresses ou compromissos. Posso não estar a passar o meu tempo em chás e cabeleireiros como uma 'lady of leisure' de bom tom deveria fazer, mas sem dúvida que tenho aproveitado para fazer coisas de que gosto:

  • Já fui almoçar um dia com as minhas amigas freelancers (elas encontram-se de vez em quando para almoço, mas quando estou empregada não tenho tempo para estes almoços prolongados)
  • Pude ficar na minha noite semanal de dança swing até mesmo à última, quando nos mandaram dali para fora
  • Tenho tido tempo para ir dar passeios
  • Tive tempo para inscrever-me no médico de família local, tratar de seguros, mudar de ginásio e fazer essas coisas todas que demoram sempre tempo a tratar
  • Tenho tido tempo para ler sobre assuntos que me interessam a nível pessoal e profissional e estar mais informada sobre eles
  • Tenho tido tempo para estudar sobre a indústria para a qual vou trabalhar
  • E tenho tido tempo para conhecer novos locais

Os leitores mais atentos do blog sabem que adoro descobrir cafés com internet gratuita que sejam calmos e onde possa passar lá várias horas. Então, como uma boa 'lady of leisure', ontem fui visitar a última adição à rede de cafés de Londres, que segue um conceito de café completamente diferente do habitual - o Ziferblat. Ziferblat é um espaço localizado em cima do conhecido pub em Shoreditch Church "The Corner Shop", decorado como se de um apartamento se tratasse, com muitas mesas, cadeiras, sofás numa mistura de estilo entre o tradicional e art deco. Contam com um piano e leitor de discos que podem utilizar sempre que quiserem e também lá está disponível uma cozinha onde cada qual pode ir fazer o seu café, chá, torradas ou buscar umas bolachinhas tal como se estivessem em casa. O acesso é ilimitado e podem beber tantos cafés ou comer tantas torradas quantas quiserem (e houverem). Se preferirem, podem trazer comida de casa e aquecem lá no micro-ondas. O acesso à internet está disponível para todos e existem várias tomadas onde carregarem a bateria dos computadores. Para tudo isso só se paga £0.03 por minuto, ou seja, £1.80 por cada hora que lá estão a utilizar o espaço. Está aberto todos os dias das 10h às 24h e o staff é extremamente simpático. 

 

Ziferblat cafe

 

Com aquele tipo de espaço torna-se também fácil de conhecer as pessoas com quem se está a partilhar a mesa ou em conversa na cozinha. O ambiente é bom e agradável, e sem dúvida um óptimo conceito que penso que vá continuar a ter sucesso por cá. A meu ver, as duas únicas desvantagens é que estava demasiado cheio, o que torna o espaço mais barulhento e poderá não haver cadeiras disponíveis. Outra desvantagem é que a internet não estava muito estável, possivelmente pela grande quantidade de computadores ligados à mesma rede. De forma geral gostei, mas penso só utilizar o espaço nas horas mais tardias quando espero que não esteja tao cheio. 

 

Esta semana também fui ao tal almoço a que fui convidada para conhecer os meus novos colegas, e fiquei agradavelmente surpreendida. Eram muito simpáticos e também gostei do facto de ver o novo escritório que agora têm que é bastante mais agradável do que o escritório onde fui no dia da primeira entrevista. Boas perspectivas pela frente e, para já, vou continuar a aproveitar a minha semana de folga como uma boa 'lady of leisure'.

Não sei como é que me meto nestas coisas

Eu gosto muito de ter as minhas unhas arranjadas, ter a pele hidratada, sem arranhões muito menos nódoas negras. Quando estou a exercitar gosto de estar ou no ginásio, ou a correr junto ao canal ou assim em locais agradáveis e apropriados para o efeito. 

 

Se eu gosto disso tudo assim, porquê, mas porque é que eu digo que sim a coisas destas?????

 

O marco dos 30

Tinha eu 15 anos quando li um artigo de jornal em que o jornalista começou o artigo assim "Faz hoje 15 anos que celebrei os meus 15 anos". Nunca mais me esqueci desse artigo porque achei interessante a retrospectiva que o autor estava a fazer aos seus últimos 15 anos de vida, quando estava a entrar numa nova década da sua vida. Eu, tendo 15 na altura, senti que estava "no outro lado da moeda", e que tinha uma espécie de tela branca à frente que me permitia pintar a minha vida como bem quisesse durante os 15 anos seguintes. Talvez por isso tenha ficado sempre com a ideia de que fazer os 30 seria um marco importante na minha vida. 

 

Hoje cheguei a esse marco, e ao olhar para tráz vejo que a tela tem algumas imperfeiçoes e que não ficou desenhada bem da forma que eu queria, nomeadamente a nível profissional não estou no nível de senioridade e salário que queria e a nível pessoal já queria ter encontrado o "Mr. Right" por esta altura. No entanto, de forma geral, fico contente por ver que esta é uma pintura bonita de que me orgulho. Aos 15 anos ainda estava eu a entrar para o ensino secundário, e desde então aconteceu tanta coisa! - a minha entrada para a faculdade, o meu Erasmus em Londres, as primeiras entrevistas, os percalços dos primeiros empregos e o esboço que comecei a delinear da minha carreira profissional. Tantos foram os diferentes grupos de amigos, muitos que vieram e foram, outros que ficaram; os namorados e as zangas - aqueles que nos fazem sentir que o mundo já não faz tanto sentido sem eles, mas que passado um tempo já nem nos passam pela cabeça; as saídas à noite e as primeiras sensações de ressaca - daquelas em que prometemos para nós próprios que nunca mais voltamos a beber, mas que ao fim de alguns dias esquecemo-nos da promessa. As diferentes viagens com a família, amigos e trabalho e as experiências e lembranças deixadas por cada uma delas. Os momentos de maior sucesso no trabalho e aqueles em que só me apetecia chamar nomes ao meu patrão ou colegas. Os momentos dedicados a mim mesma em que me concentro numa profunda tristeza, e os momentos de completa alegria em que me sinto no topo do mundo.

 

Um pouco mais de metade da minha tela foi pintada em Londres, e, apesar das linhas escuras pintadas nesse lado da tela, a maior parte da pintura é feita de cores alegres que me fazem agradecer o momento em que tive a oportunidade de vir para esta cidade. Sinto que mudei imenso como pessoa ao longo destes anos, aprendi e cresci. A minha vida em Londres e as experiências que aqui tive fazem de mim a pessoa que sou hoje e estou contente com o resultado. Há coisas que queria ter pintado na altura a que chegasse aos 30 e que não pintei, mas pensando em retrospectiva - há alguma coisa que eu teria feito de forma diferente ou alguma oportunidade que me arrependo de não ter apanhado? - De forma geral, a resposta é não. Claro que agora sei que talvez deveria ter tomado algumas decisões diferentes em certas alturas, mas como costumo dizer - é a viver e a tomar as decisões erradas que se aprende para melhorar no futuro. 

 

Agora que cheguei a este marco da minha vida parei a pintura desta tela e vou deixá-la como está. Fica pendurada na minha memória para que sempre que queira, possa rever, repetir boas tomadas de decisão e lembrar de evitar cometer os mesmos erros. Há minha frente, tenho uma nova tela branca na qual irei desenhar os próximos 15 anos da minha vida. É entusiasmante ter novamente a mesma perspectiva que tinha quando aos 15 anos - a perspectiva de que posso fazer o que quiser da minha vida durante os próximos 15 anos e o entusiasmo para alcançar aquilo que pretendo. Venham daí mais 15!

 

Quero aqui deixar neste post o link para a música St. Louis Blues de Sidney Bechet, por nenhuma outra razão de que calhou ser esta a música que estava a ouvir quando comecei a escrever este post e que acho que o acompanha bem.