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Tuga em Londres

A vida de uma Lisboeta recentemente Londrina.

Sintra - o concelho fantasma de dia e perigoso de noite

Voltei no domingo à noite de umas mini-férias em Portugal. Mini-férias porque afinal, comecei o novo emprego apenas há um mês, e não queria estar já a tirar um longo período mas também não queria deixar de visitar a família. 

 

Tal como habitual, passei o meu tempo em Portugal entre a casa dos meus pais que moram num bairro na linha de Sintra e a aldeia onde mora a minha avó, e o que reparei é que, quer num sítio quer noutro, a população jovem está a diminuir consideravelmente. Isso não é propriamente novidade quando se fala de uma aldeia, mas na zona suburbana de Lisboa? Isso parece-me um pouco estranho visto que, na época em que os meus pais se mudaram para lá, há pouco menos de 40 anos, os bairros ali da zona ainda estavam todos a ser construídos e era a zona favorita para os novos casais colocarem raízes - perto de Lisboa mas onde comprar casa era consideravelmente mais barato. Quando ali vivia, o bairro era um rebuliço de crianças a brincar nas ruas, jovens nos cafés e bares. Agora,... vejo as pessoas da idade dos meus pais e mais velhos, nos cafés e pastelarias, e é só. Crianças são poucas e o bairro de forma geral está muito mais calmo em termos do número de pessoas que se vê nas ruas, mas também é considerado mais perigoso em termos de assaltos, o que dantes não se ouvia tanto falar. 

 

Por outro lado na aldeia da minha avó, começa a ser triste passar naquelas ruas e ver cada vez mais casas degradadas, desprezadas pelos donos ou com placas de "Vende-se" nas janelas que já lá estão há anos. 

 

Fiz uma pequena pesquisa para ver se conseguia encontrar uma justificação para esta diferença. Segundo o Diagnóstico Social do Concelho de Sintra, em relação aos últimos sensos de 2011, a situação no concelho de Sintra em termos de população é que tem a maior taxa de população estrangeira do país, representando 8.65% da população de Sintra o que se refere um valor quase 2% superior ao valor da zona metropolitana de Lisboa. Mas o facto de haver mais imigrantes em Sintra não justifica a população envelhecida.

 

Segundo o INE (2013)  “O Pais mantém a tendência de envelhecimento demográfico, processo que se evidencia na alteração do perfil que as pirâmides etárias apresentam nos últimos anos, quer na base da pirâmide etária – realçado pelo estreitamento, que traduz a redução dos efetivos populacionais jovens, como resultado da baixa de natalidade – quer no topo da pirâmide – pelo seu alargamento, que corresponde ao acréscimo das pessoas idosas, devido ao aumento da esperança de vida, observando-se algum desequilíbrio entre os efetivos masculinos e femininos nas idades mais avançadas” - ora esta lenga lenga toda basicamente significa que o pessoal anda a ter sexo a menos. Isso já trás alguma justificação, visto que há decréscimo do número de bébés.  Também se notou um decréscimo na população jovem dos 30-34 anos entre os censos de 2001 e os de 2011.

 

Outra estatística interessante, é que, segundo a Marktest, referindo-se também aos censos, apesar do concelho de Sintra ser um dos mais populados do país, tem um saldo das deslocações diários negativo ou seja, o número de pessoas que saem do concelho para trabalhar e estudar todos os dias é superior ao número de pessoas que entram no concelho todos os dias. Ora mas se as pessoas apenas estão em Sintra para ir dormir, isto vai um pouco em contra ao que foi anunciado pela Bloom Consulting que colocou o concelho de Sintra na 7ª posição no ranking 'City Brand Ranking' de Portugal, o qual se baseia num critério que avalia cada cidade com base na sua qualidade para viver, negócios e visitar. Ora mas se a maioria das pessoas do concelho nem sequer lá trabalha, como é que o concelho de Sintra recebeu tal posição?

 

Em termos de criminalidade, segundo um artigo da Prosegur, Lisboa e Sintra apresentaram maior ocorrência de criminalidade no país em 2014 - 35% do conjunto de todos os distritos. E finalmente, a nível de emigração, embora não tenha encontrado dados específicos para os residentes da zona de Sintra, nota-se que a nível do país tem havido um forte crescimento do número de emigrantes Portugueses segundo o SEComunidades

 

portuguese emigration stats.PNG

 

Ora com isto tudo dá para concluir que, a população do concelho de Sintra, principalmente no bairro em que os meus pais vivem, está a ficar mais envelhecida porque, apesar deste ser o concelho com maior número de imigração, quem entra no concelho prefere ir trabalhar ou estudar fora dele, o que torna a zona quase fantasma aos dias de semana durante o dia. Além dos mais, com uma taxa de criminalidade elevada, isso previne o interesse dos jovens casais fazerem o ninho por lá, muitos mudam-se para o estrangeiro e, os que lá ficam, não andam com vontade de fazer sexo (ou então protegem-se bem) porque cada vez há menos bébés. Com isto tudo, parece-me que os únicos que estão errados são os tipos da Bloom Consulting que, obviamente não percebem nada de interpretar estatísticas, porque senão não teriam colocado o concelho com um ranking tão elevado.

 

Não digo que Sintra seja um concelho mau para se viver, porque de facto não o é e, Sintra na minha opinião, continua a ser uma das vilas mais bonitas que alguma vez vi. Para além da vila, existem também muitas zonas no concelho com grande potencial para se tornarem atraentes para a população, mas neste momento falta ali qualquer coisa. Falta a criação de uma diferenciação da zona. Falta identificarem aquilo que Sintra tem de melhor e fomentar o seu desenvolvimento tanto a nível do planeamento do território, como de estabelecimentos de comércio, espaços públicos, estabelecimentos de educação, de artes, eventos públicos e outros que transformem Sintra num concelho muito mais atraente do que actualmente é, tal como o merece. 

 

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