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Tuga em Londres

A vida de uma Lisboeta recentemente Londrina.

Os 'crackheads'

São agora 18:45h e estou agora sozinha no escritório que fiquei para acabar algumas coisas. Do meu lado direito tenho uma janela que dá para um beco onde à cerca de 2 horas atrás vieram-se sentar a um dos cantos um grupo de 3 pessoas que ainda ali estão. Um dos meus colegas é que reparou neles e disse "the crackheads are back".

 

Aparentam ser sem-abrigo e a mulher, pelos seus 40 anos, acendia uma espécie da cachimbo, enquanto que um dos dois homens, ambos também pelos seus 40 anos, estava a alisar um papel de alumínio e a colocar qualquer coisa lá em cima. Estavam a fumar crack e talvez outro tipo de droga também. E esta não é a primeira vez que aqui vêm. Sendo um beco no Soho, apesar de ser bem no centro de Londres, numa zona onde regularmente passa polícia, devem ter verificado que aqui ninguém os perturba e podem consumir as drogas que lhes dão prazer o quanto quizerem. 

 

Passado algum tempo ouvimos mais vozes e a minha colega chama à atenção de que estava ali a decorrer uma 'drugs party' com as novas pessoas que tinham chegado entretanto. Eram mais dois homens, um pouco mais jovens, mas desta vez nem pareciam sem-abrigo, que dava para ver pela roupa que usavam. Um deles estava a olhar fixamente para o braço e rapidamente apercebemo-nos que estava à procura de uma das veias para injectar (talvez heroina?). Foi perturbante vê-lo a injectar-se e rapidamente voltei-me para o computador. 

 

Os meus colegas entraram numa discussão sobre o assunto em tom de brincadeira e gozo, dizendo que íam pesquisar online uma música de sirenes para ver o que eles fariam se as ouvissem. Pedi-lhes para não fazerem isso e pararem de brincar com o assunto. Uma das minhas colegas vira-se para mim e pergunta, com ar meio espantado - "Mas porquê? Parece que estás com pena deles?" E estava. 

 

É que esta é a vida que eles levam! Principalmente os sem-abrigo, possivelmente passam os dias a pedir esmola para depois usarem para comprar estas drogas que talvez sejam a única coisa que lhes dá prazer na vida. Pode ser um pouco desconcertante para nós que os vimos, principalmente o momento em que um deles injectou a seringa, mas não deixa de ser um momento que penso que seja bom para eles. Por isso, porquê tentar fazer algo como pregar-lhes uma partida com o som de uma sirene, ou até mesmo chamar a polícia, como um dos meus colegas sugeriu? Eles concerteza que não gostam da vida que levam, e concerteza que já terão passado por momentos muito maus, por isso porquê, estar a trazer-lhes mais um momento negativo? Eles não nos estão a fazer nenhum mal. Se a polícia viesse também não ía fazer com que eles deixassem de tomar drogas no futuro. Apenas faria com que lhes tirassem todas as drogas com as quais talvez tenham estado a sonhar durante muito tempo e possivelmente passassem parte da noite a chorar por causa disso.

 

De vez em quando ía olhando pela janela para ver se ainda ali estavam. De todas as vezes estavam a fumar mais ou a fazer um novo. O que tenho achado muito estranho é que, em momento nenhum os ouvi rir. Não é esse o objectivo? Sentirem-se melhor e rirem? Talvez o corpo já esteja tão habituado que já não faz esse tipo de efeito? 

 

São 19:20h. Acabei de olhar novamente para a janela e eles já lá não estão. 

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