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Tuga em Londres

A vida de uma Lisboeta recentemente Londrina.

Conversa de emigrantes

Hoje chego a casa cansada, coloco uma pizza no forno e comento para o meu flatmate que também estava na cozinha:

- Ora isto diz que demora cerca de 20 minutos no forno.

- Olha lá que 20 minutos é muito. Vais ficar com a pizza toda queimada.

- Ah mas eles dizem aqui que é 20 minutos para frozen.

- Ah, tiraste agora a pizza do congelador? Então talvez seja. Eu costumo sempre colocar a pizza de chilled por isso demora menos mas se já estava frozen tem lógica demorar um bocado mais.

 

Eu lembro-me quando ainda vivia em Portugal e ouvia as amigas emigrantes da minha mãe falar, achava inadmissível como é que se trocavam todas a falar Português a colocar umas palavras Francesas pelo meio das conversas. Ainda acho que o nível de "linguagem emigrante" que tinham era muito elevada para quem passou a maior parte da vida em Portugal, mas agora também as percebo. Na altura pensava que elas faziam isso para mostrar que viviam no estrangeiro. Mas então e esta situação da minha conversa com o meu flatmate. Só aqui estávamos nós os dois, em casa, em Londres. Concerteza que não estavamos a tentar mostrar a ninguém que somos emigras, e não que isso seja alguma razão de orgulho para querer dar a conhecer. O facto é que quando se passa o dia todo a falar e pensar noutra língua o nosso cérebro fica preguiçoso de mudar para uma nova língua. E ao encontrar-me naquela situação com o meu flatmate, claro que vou falar com ele em Português, mas estava a ler a palavra "frozen", logo em vez de tentar traduzi-la simplesmente recito-a porque é mais fácil. E possivelmente o cérebro dele teve a mesma lógica e, ao ouvir-me dizer "frozen" e querer referir-se a um antónimo dessa palavra, disse o antónimo na mesma língua e utilizou o termo 'chilled' em vez de 'refrigerado. 

 

Depois de sair da cozinha saí de lá a pensar nessa conversa e no porquê de termos utilizado essas palavras em Inglês, mas o facto é que, ao pensar nisso, até que falo com ele dessa forma várias vezes. O mesmo acontece com as minhas amigas Portuguesas que estão por cá. Com quem tenho mais confiança, simplesmente deixo ir a primeira palavra que vem à cabeça, enquanto que se estiver num outro ambiente com outros Portugueses que já não conheça tão bem por cá ou sempre que estou em Portugal, tento evitar o uso desses termos ao máximo. Prefiro parar para pensar e lembrar-me da palavra antes de dizer a alternativa Inglesa.

 

É interessante apercebermo-nos como o nosso cérebro funciona relativamente às línguas. Portanto não é de julgar ninguém que se saí com uns estrangeirismos. Algumas vezes pode ser sim uma forma de exibicionismo provinciano, mas muitas outras é simplesmente culpa de um cérebro preguiçoso. 

 

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